sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Em que parte da África, exatamente, surgiu o Homo sapiens? Em várias


Que o ser humano surgiu na África há no mínimo 200 mil anos, ninguém duvida. Mas os detalhes dessa história sempre foram nebulosos. A hipótese mais aceita, e que costuma figurar nos livros escolares, é a de que o berço da civilização é o atual território da Etiópia. É ali que nosso ancestral comum com os chimpanzés teria se isolado geograficamente — e então sido presenteado pela evolução com um cérebro enorme, postura ereta e os demais traços anatômicos e comportamentais que nos tornam únicos.
Pena que essa está longe de ser a versão definitiva. De tempos em tempos surge uma nova descoberta para virar a explicação mainstream de ponta-cabeça. A última bomba veio em junho do ano passado: foram encontrados quatro esqueletos humanos de anatomia razoavelmente moderna na região de Marrakesh, no Marrocos. Eles viveram a 5,5 mil quilômetros de distância do suposto epicentro das migrações humanas, e 100 mil anos antes da data que, por décadas, foi adotada como marco inicial do Homo sapiens. Mesmo assim, você não veria diferença quase nenhuma se pegasse um ônibus com eles.
“Isso nos dá uma noção completamente diferente da evolução da nossa espécie”, disse na época o arqueólogo Jean-Jacques Hublin, responsável pela pesquisa. “Ela surgiu muito antes do esperado e, pelo jeito, já estava presente em toda a África há 300 mil anos. Se houve um Jardim do Éden, então ele foi do tamanho do continente.”
Essa citação não está aqui à toa: Hublin praticamente profetizou um artigo científico recente, publicado no último dia 11. Um grupo com mais de 20 arqueólogos, antropólogos e geneticistas influentes fez uma revisão detalhada das evidências científicas disponíveis sobre a origem do ser humano. E concluiu que elas de fato apontam para uma origem múltipla — em que várias populações isoladas, nos quatro cantos da África, desenvolveram ferramentas e anatomias ligeiramente diferentes ao longo da pré-história.
“Os fósseis de Homo sapiens mais antigos não demonstram uma progressão linear simples na direção da morfologia humana contemporânea”, afirma o novo estudo. “Na verdade, eles exibem grande variedade morfológica e distribuição geográfica ampla (…) Essas informações são consistentes com a visão de que a nossa espécie se originou e diversificou em populações fortemente subdivididas, provavelmente espalhadas pela África.”
Eleanor Scerri, arqueóloga da Universidade de Oxford que montou a equipe multidisciplinar e liderou a análise, afirma que é preciso superar as disputas egocêntricas entre especialistas em evolução humana — que sempre tentam puxar a sardinha para a importância de suas próprias descobertas — e criar uma linha do tempo mais isenta, que integre todos os pontos de vista disponíveis de forma coerente.
Em outras palavras: se foi encontrado um crânio assim na África do Sul o outro crânio assado, ligeiramente diferente, no Marrocos, não há porque brigar para ver qual dos dois é o “mais correto”. Ambos são peças válidas do mesmo quebra-cabeça, e se essas peças não encaixam tão bem, é sinal de que a realidade é mais complicada do que queremos acreditar. 
A ideia de Scerri não é fornecer respostas. E sim estimular um jeito diferente de fazer as perguntas. Por exemplo: os estudos genéticos com populações africanas se beneficiariam se passassem a buscar sinais de transferência de genes entre populações diferentes em vez de considerar apenas a transmissão em árvores muito bem delimitadas, que se ramificam de um ponto de origem comum. Afinal, se havia vários agrupamentos evoluindo em paralelo, eles sem dúvida se encontraram esporadicamente e fabricaram bebês no processo — da mesma maneira que o Homo sapiens cruzou com os Neandertais quando alcançou a Europa.
Bom, ninguém disse que escrever nossa própria história seria fácil. A ciência existe para isso mesmo: questionar a si própria. E a parte mais difícil sem dúvida é admitir que é hora de olhar as coisas de outro ponto de vista.

(Fonte: BBC)

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