terça-feira, 31 de julho de 2018

“Xeque-mate: D. João VI x Napoleão Bonaparte” por Tosta Neto


A História do Brasil está permeada de incongruências, entre as quais, a “descoberta” das terras brasilis como um fator surpreendente para os portugueses. Sabe-se que a Coroa Lusitana desconfiava da existência de território além-mar (sentido oeste), haja vista a reivindicação junto à Espanha para estender o Tratado de Tordesilhas (1494), de 100 léguas para 370 léguas a oeste das ilhas de Cabo Verde. Outro equívoco historiográfico: taxar a transferência da Corte Real de Lisboa para o Rio de Janeiro como um gesto de covardia de D. João VI.
A priori, precisamos apreender o contexto histórico das Guerras Napoleônicas. A França já tinha conquistado uma parte expressiva da Europa Continental, e almejava defrontar o Império Britânico. Nesta conjuntura de poder, Napoleão Bonaparte objetivando desguarnecer a Grã-Bretanha, decretara o Bloqueio Continental. Consoante este decreto, nenhuma nação poderia tecer relações comerciais com os britânicos. Portugal, por sua vez, manteve essas transações de comércio, em contrapartida, seu território fora invadido pelas tropas napoleônicas. Surpreendentemente, num gesto de muita astúcia, D. João VI transferira a Corte Real para a colônia, restando apenas para a França Napoleônica a ocupação do pequeno território português.
O senso comum e os aventureiros da historiografia interpretam o gesto supracitado como uma atitude medrosa do rei português. Vale ressaltar, que Portugal não tinha a mínima chance de enfrentar o poderoso exército napoleônico que vinha varrendo a Europa. Escoltada pela Marinha Britânica, a Corte Real atravessou o Atlântico, passou por Salvador e desembarcou no Rio de Janeiro em 1808. Com este gesto dito “covarde”, D. João VI impedira que Napoleão se apossasse do vasto império português, que desde o século XVI, estendia-se do Brasil, passando pelo continente africano até Macau na China.


O fato é que D. João VI aplicara um xeque-mate em Napoleão Bonaparte, numa investida sagaz até então inédita na história, por conseguinte, a transferência da corte não pode ser interpretada de forma precipitada e unívoca. No tabuleiro das potências militares da primeira metade do século XIX, Portugal não tinha forças bélicas que lhe concedessem protagonismo, sendo mais crível e prudente o estabelecimento de alianças, sobretudo com a Grã-Bretanha que ostentava o status de império mais extenso do mundo.
Nas primeiras décadas do século em questão, com a expansão da industrialização, a Europa passava por mudanças impactantes na economia. Portugal ainda tinha uma concepção econômica manufatureira e mercantilista, portanto equidistante dos trilhos da industrialização. A França sacudida pela revolução de 1789 e com a ascensão de Napoleão ao poder, buscava a condição de principal potência no tabuleiro geopolítico ao rivalizar com o Império Britânico. D. João VI soube tirar proveito desta rivalidade e amealhou um aliado de peso. Portugal fortaleceu os laços econômicos com a Grã-Bretanha, além de ter conquistado a tutela militar da nação mais poderosa do século XIX. Logo, é mister reconhecer o ato visionário e estratégico de D. João VI ao transferir a corte para o Rio de Janeiro, concedendo para o Brasil o papel de sede do Império Português.

Tosta Neto, 31/07/2018 

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