terça-feira, 5 de junho de 2018

"Na boleia do caminhão: reflexões sobre a crise que parou o Brasil" por Tosta Neto


Nos derradeiros dias, o Brasil ficou literalmente parado com o movimento reivindicatório e legítimo dos caminhoneiros. Sabe-se que a política de preços da Petrobras foi alterada, cujo preço do litro de combustível é calculado conforme as cotações do dólar e do barril de petróleo no mercado internacional; os preços seguem uma perspectiva mais volátil e flexível. Com a disparada do dólar e a valorização do petróleo, os preços atingiram níveis altíssimos. Por conseguinte, a Petrobras é uma empresa estatal de capital aberto, portanto precisa estar coadunada às leis que regem o mercado.
A gestão amadora e deplorável de Sérgio Gabrielli e Graça Foster adotou um modelo intervencionista na Petrobras, deixando o preço do combustível abaixo do valor de mercado, status que trouxe prejuízos bilionários, além de ter exercido influência artificial na inflação. Não esqueçamos da quadrilha liderada pelo PT, PMDB, PP e apaniguados que usurpara 46 bilhões de reais dos cofres da Petrobras. Só para efeito de curiosidade: o valor roubado citado acima daria para comprar Neymar 46 vezes. O “Petrolão” é considerado o maior escândalo de corrupção da história da humanidade. “Nunca na história deste país [...]” se roubou tanto numa empresa estatal. Ainda bem que a Operação Lava-Lato defenestrou esta quadrilha da Petrobras. Enfim, a crise em pauta também tem reflexos do roubo estratosférico efetuado na nossa ex-maior empresa.
A sequência ininterrupta de alta dos preços gerou um descontentamento na população, sobretudo entre os caminhoneiros. Ademais, impostos mui altos estão inseridos no preço do combustível; praticamente, metade do preço do litro da gasolina corresponde à fatia tributária. O que adianta ter uma empresa estatal que monopoliza a produção e pagar tão caro pelo combustível. A insatisfação generalizada desembocou na paralisação dos caminhoneiros, movimento que surgiu de forma espontânea sem a interferência nociva de partidos e sindicatos. É louvável o apoio do povo à causa justíssima dos caminhoneiros, apesar do caos gerado pelo desabastecimento.
Neste momento de crise, partidos oportunistas e políticos cínicos querem colher dividendos eleitorais. É válido salientar a inércia e a incompetência do governo Temer para resolver tamanho imbróglio. Precisa-se encontrar uma saída fiscal para que o povo e os caminhoneiros não fiquem ainda mais sufocados com esse tresloucado fardo tributário. Os ilustres e sensíveis governantes poderiam fazer cortes de gastos públicos desnecessários: auxílio-paletó, auxílio-moradia, verbas vultosas de gabinete, nutricionista particular para primeira-dama, inúmeros motoristas e seguranças, etc.
O movimento em questão trouxe à tona as árduas condições de trabalho dos caminhoneiros, que atravessam esse país continental para dinamizar toda a logística. Os guerreiros das estradas enfrentam diuturnamente uma série de riscos, como vias degradadas e assaltos a cargas, que nos últimos anos estão se tornando mais assíduas. O caminhoneiro é submetido a uma hercúlea jornada de trabalho, além de labutar com a pressão sufocante da entrega da carga no prazo estabelecido, circunstâncias que levam alguns caminhoneiros à adoção de medidas que “cortam o sono”, haja vista o uso do famoso arrebite. O Ministério do Trabalho e o Poder Legislativo devem apresentar uma intervenção mais incisiva em prol da qualificação de trabalho para classe dos caminhoneiros.
A paralisação dos caminhoneiros só atestou o quão o Brasil depende das rodovias. As autoridades competentes poderiam adotar estratégias para diluir tal dependência. Depender de algo de forma exacerbada é um retrocesso. Como diria Voltaire: “a dependência é a raiz de todos os males.” O nosso país precisa investir em infraestrutura e diversificar o aparato logístico. Um caminho exequível é o investimento na construção de ferrovias, fator que desafogaria as rodovias e influenciaria na qualidade da viagem. Lá nos idos dos anos 50 e 60, os governantes erraram ao apostar todas as fichas nas rodovias e relegar as ferrovias. Precisaríamos de um, dois, três Barões de Mauá. Estamos numa encruzilhada. Sem querer ser estoico ou cético, não é possível discernir no horizonte uma solução que nos tire desta incógnita.

Tosta Neto, 05/06/2018

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